26/03/2018

Prática pastoral

‘O mistério eucarístico é, sem dúvida, o centro da liturgia sagrada e, mais ainda, da vida cristã.

Prática pastoral

 

‘O mistério eucarístico é, sem dúvida, o centro da liturgia sagrada e, mais ainda, da vida cristã. Por isso a Igreja, iluminada pelo Espírito Santo, trata de penetrá-lo cada dia mais e de viver dele mais intensamente”.  

(Eucharisticum Mysterium, 1967).

 

Para a compreensão de algumas características da celebração eucarística, precisamos fazer um breve sobrevoo sobre a história da liturgia nos I e II milênios. A comunidade cristã começou a celebrar a eucaristia pelo mandato de Jesus: “Fazei isso em memória de mim” (1 Cor 11, 24-26). Como memorial, a eucaristia é a “recordação objetiva, celebração que atualiza o que recorda, sinal visível, sacramental, tangível, de uma realidade que não se considera passada, mas presente”. É o alimento sacramental no qual Cristo atualiza sua presença e sua entrega no meio da comunidade Cristã, fazendo com que ela, através dos sinais do pão e do vinho, entre em comunhão com seu corpo e seu sangue e deste modo, participe da força salvadora de sua morte pascal.

No I milênio, o núcleo da fé cristã estava centrado na celebração do mistério pascal e na escuta da Palavra que era ouvida na dinâmica do mistério celebrado. Aqui, toda a comunidade celebrativa participava atentamente da narrativa da ceia ao redor da mesa. Privilegiava-se a simplicidade, o uso de orações pequenas para destacar o essencial. Já no II milênio dá-se um distanciamento entre o povo e a Eucaristia. De uma experiência celebrativa e existencial da fé do I milênio, passa-se para uma experiência devocional cujo núcleo da fé passa a ser a devoção ao Santíssimo Sacramento. Aqui, o Padre celebra e o povo assiste. A comunidade não celebra mais o memorial da Paixão de Jesus, mas está atenta a olhar a hóstia no ato da consagração e adorá-la. A Palavra que fazia parte do culto do memorial da Páscoa, não é mais ouvida com a atenção e valor devidos. Enquanto o Padre proclama a Palavra no altar o povo se ocupa das práticas devocionais como a reza do terço e leituras sobre a vida dos santos.

Conforme a Sacrossanctum concilium número 21, a Liturgia é composta de “partes suscetíveis de mudanças”. Isso aconteceu no decorrer da história. Importante

 

mudança aconteceu com o Concílio Vaticano II e a consequente reforma litúrgica. A Sacrosanctum Concilium (1963) destacou o plano teológico e não mais os ritos em si. O mais importante agora é o conteúdo da fé que eles devem exprimir. Assim, esse Concílio retoma a riqueza da Liturgia do I milênio, dentro do contexto da revelação, como “história da Salvação” (SC 26). A liturgia como a transmissão do mistério salvífico de Cristo através de um rito.

O Concílio Vaticano II retoma a dimensão pascal da Eucaristia no seu caráter memorial. É pela ação ritual que somos “transportados” para o momento da Paixão e Ressurreição de Jesus.

Nossa geração foi evangelizada segundo as características do II milênio marcado por um deslocamento de eixo e por uma introdução de elementos secundários como, por exemplo, a elevação da hóstia e do cálice para serem vistos e adorados, gestos acompanhados pela tradicional campanhia para chamar a atenção do povo. Em muitas celebrações, durante ou logo depois da consagração, cantam-se hinos de adoração e louvor ao Santíssimo Sacramento. Alguns jovens, antes de comungarem, fazem uma reverência se ajoelhando ou se curvando diante do Padre ou do Ministro Extraordinário da Eucaristia antes de tomar a comunhão. Herança de uma religiosidade popular herdada da colonização ibérica, caracterizada pela centralização do culto dos santos.  Segundo o teólogo especialista em Liturgia, F. Taborda sj, desde o século passado, religiosos vindos da Europa conseguiram introduzir uma piedade eucarística à imagem da prática do culto dos santos. A hóstia consagrada era como que um “santo” a mais a honrar.  Recentemente esse tipo de piedade foi reforçado pela renovação carismática católica que, em vários lugares, acentua mais a adoração do santíssimo sacramento do que a celebração eucarística. A partir dessa situação, fica o desafio de conduzir o povo para a centralidade da Eucaristia como celebração do mistério pascal.

Como assessórios desnecessários em nossa liturgia, os numerosos e longos comentários parecem mais distrair do que chamar a atenção para o essencial.

Nossas Igrejas são grandes, retangulares com o altar deslocado para o canto, longe da maioria do povo, dificultando a visibilidade dos gestos sacramentais do tomar o pão, dar graças, e parti-lo. O Padre celebra e o povo assiste passivamente

Um outro problema observado em não poucas comunidades é a “correria” com a qual se celebra. Um problema estrutural da Igreja que tem poucos ministros ordenados para atenderem a todas as comunidades nas celebrações dominicais. Consequência disso, é a ausência de celebrações em algumas comunidades ou de uma celebração apressada já que o sacerdote precisa terminar uma celebração e ir logo para outra comunidade celebrar outra. Isso atrapalha os fiéis a vivenciarem a simbologia litúrgica e o mistério celebrado. Ainda segundo o teólogo F. Taborda, o problema real não é a falta de padres, mas a maneira de selecionar os ministros a partir da concepção pós-tri dentina da vocação ao ministério. Segundo ele, os sacerdotes são retirados de seu meio e educados em um seminário, com uma formação acadêmica. São celibatários e encarregados de uma paróquia que lhes é desconhecida, ou então, em todos os domingos, eles vêm de outros lugares para celebrarem a Eucaristia, sem participarem da vida quotidiana da comunidade que presidem. No entanto, muitos são os leigos que assumem hoje a animação da vida da comunidade e presidem no lugar do sacerdote e que tem trabalho e família. Se essas pessoas tivessem reconhecido, pela imposição das mãos do bispo, o ministério que exercem de fato, não haveria essa falta de sacerdotes, e todas as comunidades poderiam celebrar a Páscoa dominical.

 

Não raro o contrário também acontece. Um prolongar da liturgia que aborrece quando se faz pela multiplicação abundante e prolixa de palavras, comentários do obvio ou com cantos longos e barulhentos.

 

Como algumas pistas práticas para uma maior e melhor experiência do mistério celebrado hoje, torna-se mais importante na catequese e nas celebrações litúrgicas valorizar e chamar a atenção para os símbolos. Vivemos numa sociedade na qual triunfa a razão científica e instrumental que reduz toda a verdade ao que se pode verificar e provar experimentalmente. A Eucaristia pertence fundamentalmente ao mundo do símbolo e não da cultura tecnológico-instrumental. O universo simbólico necessita de tempo e atenção para saboreá-lo. A pressa e a preguiça dificultam nossa capacidade de abstrair o símbolo. Uma celebração apressada impede que as pessoas desfrutem da simbologia litúrgica. Uma inflação de símbolos e dinâmicas criativas, acessórios na liturgia, também é ruim, pois dispersa tirando a atenção e o foco para o principal.                                                                                                                                                                     Importante primar pela simplicidade, por um tempo hábil e silencio fecundo para que a comunidade dos batizados, através do sacerdócio comum dos fiéis, Igreja Povo

Sacerdotal (cf. 1Pd 2,3) possa saborear a riqueza simbólica da liturgia e mergulhar no mistério celebrado. Entrar na dinâmica do memorial, sentindo-se contemporânea ao mistério pascal e destinatária dos bens futuros. A Sacrossanctum Concilium (SC 14.48) expressa o desejo de que os fiéis sejam levados à participação ativa das celebrações.  As equipes de liturgia, que preparam e orientam as sugestões litúrgicas, precisam manter o equilíbrio entre palavras, gestos, cantos e silêncio e responder ao espírito da liturgia. Ao ministro ordenado fica a responsabilidade de preparar bem a homilia fazendo a ponte entre a Palavra anunciada e a Palavra celebrada ajudando o povo concelebrante na interiorização do mistério que se celebra e não se afogar em discursos, sobretudo com temas moralizantes, em que o pregador não saiba como terminar.

Uma outra ferramenta que auxilia na experiência do mistério celebrado é a organização da comunidade celebrante reunida ao redor da mesa/altar. É nele que se torna presente, através dos sinais sacramentais do pão e do vinho, o sacrifício da cruz e também a eucaristia. Por isso, é a mesa do Senhor, da qual o povo é convidado a participar da grande ação de graças que se cumpre com a eucaristia. Pelo seu valor sacrificial e cerimonial sua localização dever ser o centro para o qual converge a atenção de toda a assembleia, atentos ao princípio da visibilidade, tão caro ao Concílio Vaticano II no que tange à celebração da liturgia.

O cuidado e a valorização da liturgia da palavra também se fazem necessários porque “Cristo está presente também na proclamação da Sua Palavra, pois ele mesmo que fala quando se lêem as escrituras na Igreja” (SC 7). As leituras devem ser bem proclamadas, com pronúncia clara para que todos possam entender bem as palavras que estão sendo proferidas para que ela se torne Palavra de Salvação. Segundo Catecismo da Igreja Católica número 1154, a liturgia da palavra é parte integrante das celebrações sacramentais. Por isso, orienta a valorização dos sinais da Palavra como o livro da Palavra, o lecionário ou evangeliário, sua veneração com procissão, incenso, luz bem como o lugar de onde é anunciada, o ambão, deve estar bem localizado para ser visível para que todos possam acolher a leitura de modo audível e inteligível.

Deve também ser valorizado a acamação memorial com uma resposta do povo celebrante que seja cantada e bem pronunciada e não simplesmente resmungada.

Tais pistas pastorais sugeridas acima têm o intuito de fazer com que a celebração eucarística seja de fato um momento de transfiguração para todos que ali celebram cada vez que se reúnem em torno da Palavra e do pão e do vinho para celebrarem o memorial da vida, paixão e morte do Senhor Jesus. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pe. Anderson Trevenzoli Assireu, CSSR

 


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